Já devem conhecer o famoso “estudo” da Reader’s Digest, onde apenas uma carteira em 12 foi devolvida em Lisboa – e por turistas. Já em Helsínquia apenas uma não foi devolvida.
Trata-se, obviamente, uma farsa de estudo. Para começar a amostra é demasiado pequena (12? lol) o dinheiro nas carteiras não é ajustado ao poder de compra nem os locais onde as carteiras foram deixadas foram seleccionados de acordo com critérios estritos; o estudo não mede a honestidade, antes um suposto comportamento, que poderá ou não ter forte (ou fraca) associação ao conceito de honestidade.

estudo-carteiras-readers-digest

Se a revista quisesse fazer um estudo a sério teria não só respeitado o que estes e outros critérios elementares como teria feito algo muito simples: colocar a carteira em locais pouco movimentados e observar o comportamento da primeira pessoa a passar. Se a pessoa não a recolhesse os experimentadores recolheriam a carteira e iriam perguntar ao transeunte: viu a carteira? E se viu, porque não a recolheu?

É que embora acredite que nas ruas de Lisboa possa haver mais ladrões do que nas de Helsínquia, eu acredito que o que um estudo destes iria relevar seria o comportamento de apatia dos portugueses. As pessoas ditas normais ignoram a carteira e não se sentem no dever de agir, tal como os portugueses ignoram os seus deveres políticos.

E quando as pessoas ditas “normais” abdicam de agir, as pessoas menos escrupulosas agradecem. Os portugueses sabem do que estou a falar.

Segue o artigo original, tal como foi publicado a 11 de Fevereiro e que deu o nome a este artigo: Em verdade, um Finlandês não é mais honesto que tu…

No seu livro The honest truth about dishonesty: How We Lie to Everyone—Especially Ourselves, Dan Ariely discute os resultados de uma série de experiências sobre batota, nas quais participaram cerca de 30.000 indivíduos.
Alguns dos resultados das experiências são surpreendentes (nas circunstâncias adequadas quase toda a gente é desonesta; os “grandes batoteiros”, como políticos corruptos ou barões da banca são mais desonestos e, todavia, os custos directos da sua batota são mínimos quando comparados com o agregado das pequenas batotas da maioria de cidadãos comuns), outros nem por isso (banqueiros de Wall Street fazem mais batota que a maioria das populações; a batota é contagiosa.)

Talvez a conclusão mais inesperada seja a de que somos mais desonestos connosco próprios do que com terceiros, no nosso esforço para manter uma auto-imagem positiva. Fazer batota não resulta de uma análise racional aos custos e benefícios, antes está sujeita a uma série de influências externas, às quais nós, nos julgamos indiferentes.

A cada novo capítulo, Ariely introduz uma nova variante ao estudo original, destinada a analisar o impacto da mesma sobre o nível de batota. É assim que Ariely conclui que conflitos de interesse, liquidez reduzida dos ganhos, cansaço físico e mental, uso de bens contrafeitos, criatividade, contágio social e altruísmo/colaboração aumentam a batota; por outro lado, códigos morais e confissões e actos religiosos tais como ritos de purificação, diminuem a batota. O ganho possível e a possibilidade de ser apanhado têm menor influência do que seria de esperar.
À medida que ia avançando aumentava a minha esperança que surgisse um estudo sobre os efeitos culturais na batota: Fazem os portugueses (e os latinos) mais batota que os estudantes americanos nas outras experiências? E os chineses? Certamente canadianos e nórdicos fazem menos batota…

A minha curiosidade foi parcialmente satisfeita no final do livro; isto porque não há qualquer indicação sobre experiência com finlandeses ou portugueses. Mas testes com israelitas, chineses, italianos, turcos, canadianos e ingleses, entre outros, indicam que nem a cultura nem os diferentes índices de corrupção parecem afectar os resultados. Dada a oportunidade, as pessoas de diferentes países parecem fazer batota com o mesmo intensidade. A explicação de Ariely centra-se na falta de contexto social ou cultural da sua experiência; os resultados reflectem a nossa capacidade inata, enquanto humanos, de nos enganar a nós próprios e ao mesmo tempo obter algum ganho pessoal.
Já as nossas actividades regulares fazem parte de uma complicada teia social e cultural. Pensem em copiar nos exames: em alguns países é motivo para expulsão. Já em Portugal, ser apanhado a copiar é motivo de vergonha e no máximo, de uma sapatada na mão. E conduzir um carro enquanto embriagado não é “erro” que obrigue a perda de mandato de um deputado(a). Idem para fuga aos impostos, desvio de fundos, etc, etc.

Talvez agora percebam o título deste post: um finlandês não é intrinsecamente mais honesto do que um português, espanhol, ou somaliano. Mas dada a cultura de confiança e transparência e a coesão social é fácil compreender que em muitos aspectos seja mais fácil confiar em estranhos e adoptar valores conducentes a uma vida de integridade na Finlândia do quem no sul da Europa. Todavia, isso não quer dizer que a conclusão se possa generalizar a todas as áreas de vida. A minha experiência diz-me que em alguns aspectos os finlandeses se enganam (e enganam os outros por consequência) tanto ou mais do que nós.

4 thoughts on “Em verdade, um Finlandês não é mais honesto que tu…

  1. E só agora é que viste isso? Eu acho os finlandeses muito hipócritas , mesmo muito. Bem mais que nós…. Ou ninguém se apercebeu dos joo´s deles inspirando ou dos niin´s muito pouco convincentes E sim, isto tem a ver com a honestidade, aliás são poucos, muito poucos os finlandeses que tem coragem de dizer as coisas na cara, muito poucos. Preferem ser desonestos e não criar conflitos desnecessários no ver deles. Enfim, isto tem as suas vantagens e desvantagens…. Mas como os meus pais diziam sempre: “nem tanto ao mar, nem tanto á terra” ou seja não é preciso ser-se muito honesto como desonesto, mas sim encontrar um meio termo.

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    • Honestamente, não esperava outra resposta de ti 🙂

      Olha que nós portugueses também não somos lá muito directos a comunicar, sobretudo quando se trata de conflito. Provavelmente por razões diferentes dos finlandeses, mas nenhum exemplo a seguir.

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  2. Tiago, tu parece que estás a ter uma má experiência na Finlândia a todos os níveis, nunca te ouvi dizer nada bom sobre isto.

    Em relacão ao tópico, eu não os acho extremamente directos como por exemplo os Noruegueses mas são directos e honestos q.b.. Levam um pouco de tempo para pensar num determinado assunto mas quando têm uma resposta ou decisão ela sai para fora, seja boa ou má para os outros envolvidos.

    Os Portugueses bom… para mim são do pior na parte de comunicacão, principalmente em estruturas hierárquicas onde se fala lá de cima e quem está em baixo cala e consente. Aqui sinto uma liberdade que não sentia em Portugal para me fazer ouvir no local de trabalho independentemente de quem estiver do outro lado.

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