Aproximou-se da porta e disse o habitual “carta de condução e livrete do carro.” “Não a tenho comigo.Tirei-a da carteira à coisa de uma semana…” Entreguei à pressa o meu BI, sem sequer me pensar que eles não saberiam o que fazer com ele. “E o livrete?” Traduzi para o dono do carro, também, estrangeiro, que explicou que o carro estava em nome da namorada. E ela tinha os documentos do carro… O outro veio e fez-me soprar ao balão. “O carro tem um problema ali atrás, é ali…“, explicou o polícia. O resto não percebi. Foi até ao carro, falar com o colega. De repente lembrei-me e fui ter com eles: ” talvez o cartão da segurança social possa ajudar.” Sem carta e sem documentos, sentia-me à mercê dos polícias.

– Vivem na Finlândia? Trabalham cá?
– Sim, ali adiante.
Deu-me os documentos para a mão.
– Pode ir.
– Preciso apresentar a carta em algum lugar?
– Não é necessário.
– Então como sabem que eu tenho realmente carta de condução?
– Não sabemos. Mas contamos que sim.

A frase ecoou na minha mente e recordou-me mais uma vez, uma das coisas que eu aprecio neste país. Confiam em nós. Por vezes mais do que merecemos.
Ia a caminho do carro, aliviado, quando me lembrei de um dos problemas do carro:”não se importar de esperar até nós sairmos? O carro não tem andado a pegar muito bem…

10 thoughts on “«Não sabemos, mas contamos que sim…»

  1. Mais sobre confianca na Finlândia -> http://learningaboutfinland.blogspot.fi/2011/04/trust.html

    Há uns meses estávamos numa feira e quisémos comprar uns frascos de doce mas a vendedora não aceitava cartão e não tinhamos dinheiro suficiente. Para meu espanto nestas situacões o vendedor passa uma nota para pagamento (será correcto chamar-lhe factura) com a quantia e número da conta bancária.

    E em Portugal isto seria possível? Compra-se uma camisola na feira: “Não tem dinheiro? Tome lá a conta bancária e transfira dentro de 30 dias”… Já foste!

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    • Sim, essa “nota de pagamento” é que é efectivamente a factura.
      Depois quando pagas recebes o recibo.
      Mas na Finlândia normalmente tens é uma factura-recibo, quando pagas logo (supermercados, restaurantes, e por aí fora). 🙂

      Pois, é a tal coisa, até eu já disse a um desconhecido a quem faltava 10€ dos 90€ que me tinha de pagar que “näo há problema, paga de uma vez tudo por transfega bancária”. E nä é que ele pagou?

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  2. Pois pois, mas olha que não são todos assim. Aliás, isto faz lembrar mais um episódio da policia portuguesa e não da finlandesa. A policia finlandesa segue á risca tudo aquilo que tem que fazer e isto é um caso de excepção. Também achei piada ao facto dos finlandeses “confiarem” na palavra de um estrangeiro…. dá-me vontade de rir ehhhh

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    • A policia finlandesa segue á risca tudo aquilo que tem que fazer?
      Olha que se assim fosse, conheço um caso em que o prevaricador teria ficado sem carta por tipo um ano, além de pagar gorda multa… estou a ver é que a bófia fínica é muito permissiva…
      :o)

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  3. Um episódio da polícia Portuguesa? Numa situacão dessas em Portugal além de ser certinho seres multado por não ter a carta ainda tinhas que a ir apresentar a um posto dentro de 24h. E com um pouco de sorte arranjavam mais alguma coisa para juntar à multa inicial como “pneus em mau estado”.

    Eu sinto essa confianca dos Finlandeses, independentemente da nacionalidade.

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  4. Claro que nem toda a gente é assim, Tiago. É por isso que existe diversidade 😉
    E quanto à polícia, sei de quem foi parado várias vezes, também sem carta. E ainda não a teve de apresentar…

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    • Isso é que já é abuso, com a breca!

      Quanto à vossa situaçäo, e visto que trabalhais perto do sítio, se eles desconfiassem de algo era uma questäo de telefonar à empresa após a vossa partida (se calhar foi o que fizeram depois de vocês irem embora), de outro modo, vós íeis para a labuta, e näo seria agradável prejudicá-los, nem à empresa.

      Se tivessem álcool no sangue, aí é que näo passavam dali…

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      • Não, não telefonaram à empresa, ou se telefonaram não lhes souberam dizer, porque a empresa é outra.
        E eu que estive quase para botar abaixo um copito do Dona Emerlinda, antes de sair.

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