A principal causa de descontentamento dos emigrantes na Finlândia é a falta de ajustamento.

Nomeadamente, o desajustamento entre a realidade e as expectativas inicialmente geradas.

realidade vs expectativas


(Imagem daqui.)

A ilusão da sociedade utópica

Qual a melhor maneira de garantir que uma pessoa desenvolva aversão a um novo país de acolhimento? Vender-lhe uma imagem quase perfeita de um paraíso na terra. Prometer-lhe uma sociedade completamente diferente daquela que tem no seu país, onde as pessoas são felizes, honestas, educadas, o ambiente económico é propício à inovação, a economia é relativamente competitiva e próspera, o nível de vida é elevado e há igualdade entre os géneros. Bem, talvez não seja a melhor maneira, mas está lá em cima, no topo das razões de alienamento.

Se seguem as notícias que vão surgindo na nossa página inicial sabem que em quase todos os rankings que são publicados, sobre os atributos acima citados, a Finlândia segue nos lugares cimeiros:

    «De acordo com o CBI (Country Brand Index, 2012), a posição mundial da Finlândia é: 6.ª na qualidade de vida; 5.ª no sistema de valores; 9.ª no ambiente para negócios; 4.ª no sistema de educação; 5.ª no sistema de saúde; 6.ª no padrão de vida; 2.ª na consciência ambiental; 2.ª na estabilidade do sistema legal; 3.ª na tolerância; 10.ª na liberdade de expressão. Foi considerado o melhor país do Mundo em 2010 pela “Newsweek”.»

E quem não se recorda do loucura mediática sobre o “modelo finlandês”?
Sem surpresa, o embate com a realidade é inevitável e ao fim de algum tempo cá aqueles que se deixaram iludir, nem que tenha sido apenas um pouquinho, ressentem-se da utopia.

A Finlândia é um excelente país para se viver, i.e. para quem tenha ocupação e suficientes contactos sociais, mas em comparação com a a imagem que é criada pelos media, pelas agências de turismo e pela nossa imaginação, a realidade é pálida.

Seguem-se algumas das maiores dificuldades que esperam quem para cá emigra. Pelo menos vocês estarão preparados.

Os costumes

São diferentes, e mais do que o que esperamos. Para começar, os finlandeses são bastante directos nas suas palavras (ainda que indirectos nas suas intenções) e mantêm um espaço pessoal consideravelmente maior do que aquele a que estamos habituados:

espaço pessoal

Ignorar esta distância e invadir a zona de conforto dos finlandeses pode ser uma fonte constante de ressentimentos. Aos quais o “invasor” permanecerá insensível, já que ninguém lho comunicará…

Os iniciados podem começar por este manual de comportamento.

A honestidade

É verdade, se perder a carteira na Finlândia provavelmente será devolvida. Mas isso não quer dizer que as pessoas sejam mais integras (embora provavelmente o sejam), apenas que se comportam de forma bem mais honesta. Todavia, existe esta associação, como se todos os finlandeses, por obra e graça da concepção, fossem invariavelmente honestos. Sempre. Alguns finlandeses mentem, outros mentem a si mesmos para não mentir a outros. Ou como diz o George, não é mentira… se acreditares.

A falta de comunicação e o interiorizar das emoções

A Finlândia é um país com algumas características de uma cultura de alto contexto: espera-se de quem escuta que saiba ler “nas entrelinhas” e entenda a linguagem não verbal.

Isto é um problema para nós estrangeiros, mas também o é para os nativos que não têm por hábito comunicar emocionalmente e descarregar as emoções. Particularmente no Inverno (ver abaixo) é bastante fácil contagiar negativamente uma boa parte da população, já que é mais difícil defender-mo-nos de uma agressão passivo-agressiva do que de um ataque verbal. Quando se acumulam ressentimentos e emoções acabasse por se identificar com esses sentimentos, sem perceber que nem sequer eram seus.

Pela positiva, existe bastante menos conflito nesta sociedade e as pessoas entendem-se quase que por sinais de fumo. Os problemas tendem a ser resolvidos eficientemente.

A vergonha

A vergonha é uma das doenças das sociedades modernas e nisso os finlandeses serão provavelmente melhores do que ninguém. Aliás, se não fossem os melhores morreriam de vergonha.

Já perdi a conta às vezes que alguém me fala sobre algum dos seus passatempos e acrescenta: “mas não sou muito bom.” Às vezes dá-me vontade de esbofetear a pessoa. Os finlandeses são de facto muito bons em muito daquilo que fazem mas não aprecio esta epidemia que se propaga na sociedade: “não sou bom que chegue.” Bom que chegue para falar, para se fazer ouvir, para ser diferente, para exigir, para ser simplesmente…

Do que os finlandeses não têm vergonha é do seu corpo: sauna faz-se obrigatoriamente sem roupa e é seguida de um banho no lago ou mar. É frequente fazê-lo em grupos mistos.
A sauna é para purificar o corpo e não para admirar os atributos alheios; na Finlândia a sauna não tem qualquer conotação sexual.

O consumo de álcool

Durante a semana os finlandeses bebem frequentemente leite às refeições. Já ao fim de semana…
Para muitos o álcool serve como laxativo das emoções que foram sendo acumuladas com o passar de tempo. As tristezas, frustrações e até alegrias que não se permitem expressar normalmente, saem cá para fora ao fim de semana e em dias de festa.

Não me parece que a situação seja excepcional, ou pior do no resto da Europa. O que é peculiar, e talvez chocante, é a visibilidade do alcoolismo, seja por ser feito relativamente às claras e concentrado física e temporalmente, como pela relativa ausência de outros problemas graves.

A língua

Dizem que a língua finlandesa não é difícil, apenas diferente. Que é diferente é, não se assemelha a nada que conhecem. Quanto à dificuldade, vocês me dirão.
Compreendam, vir para cá por um período limitado não requer a aprendizagem da língua – e provavelmente também não o conseguiriam. Mas se vêm para cá por 5 ou mais anos (ou acabam por ir ficando, como é comum…) o desconhecimento da língua será uma importante limitação na vossa vida.

Emprego

Conseguir emprego é tarefa complicada para qualquer um; o desemprego está a aumentar e afecta mais os estrangeiros do que os nativos. A empregabilidade de um estrangeiro na Finlândia está positivamente associada com um ou mais destes factores: ter habilitações procuradas (ex. IT’s, medicina), falar fluentemente o finlandês, ter contactos, estar disposto a fazer mais ou aceitar menos do que a concorrência.

Discriminação

Sim, também por cá há discriminação. Por vezes ela é positiva, outras vezes nem por isso. Afecta alguns mais do que outros e também depende das pessoas e da forma como as pessoas reagem. Não creio que a Finlândia seja um país racista, mas há definitivamente racistas na Finlândia.

O Inverno e a escuridão

Faltam 5 semanas para o solstício de Inverno, e em Helsínquia ainda temos 7h 30 de luz. Com sorte haverá sol: pode-se passar semanas sem o ver, particularmente quem trabalha em ambientes fechados. Uma pequena parte da população sobre do síndroma afectivo temporário, os restantes vivem com um ambiente mais pesado. O “Inverno” esse já chegou: estão -2º à hora que escrevo (meia noite) e se entretanto nevasse seria plausível, embora improvável, que alguma da neve e do gelo se mantivesse até Abril. Ou Maio.

Temos 6 meses de Inverno. Há quem tenha problemas com a falta de luz de Novembro, outros, como eu, têm dificuldade em Março e Abril: depois de meses de Inverno chega uma aberta, uns dias promissores de sol e tempo aprazível. Já perceberam que não é mais que um capricho dos deuses e que seremos forçados a esperar mais algumas semanas até que a Primavera se instale definitivamente.

Pior do que a escuridão e o frio é o clima social: as pessoas ressentem-se da escuridão e recolhem a casa. Diminuem os contactos sociais, são mais negativas e distanciadas. É por isso que o Vappu, o 1º de Maio, é uma festa tão importante e tão celebrada. Como se as pessoas retirassem do armário aquela cara alegre e descontraída guardada no armário à espera dos primeiros dias de Primavera.

A “Felicidade”

Chegados aqui o leitor dirá “ah, com essa é que nunca me apanhavam. Eu sabia que eles não são realmente felizes mesmo que não se suicidem aos mil.” Mas é a verdade, este é um dos países mais felizes. Devo, todavia, apresentar duas ressalvas: Primeiro, o índice mede a felicidade (a satisfação de ter as suas necessidades satisfeitas), não a alegria. É importante compreender a distinção.
Segundo, o índice está “viciado” por definição, dado que apenas uma dúzia de nações estão realmente em condições de chegar ao topo. Países onde as pessoas sofrem privações como a guerra, corrupção e necessidades materiais não se podem equiparar. Não quero com isto tirar “mérito” aos governantes finlandeses, mas é mais fácil ser o melhor entre 20 ou 30, do que em quase 200.

Acrescento ainda que o índice mede a felicidade média de uma população – e isto pode ter pouco ou nenhuma correlação com a dos emigrantes que aí residem.

Outros

No fórum alguns membros referiram ainda a localização geográfica e a escassez de voos económicos, a cultura de serviço que, por vezes, deixa a desejar, a ausência de comida familiar e o custo de vida elevado. Haverá outros motivos para insatisfação, mas estes que referi são os principais.

Espero, todavia, ter deixado claro que se vive bem na Finlândia e é possível ser-se bastante feliz. Para isso muito podem contribuir um emprego ou ocupação, uma rede de apoio e expectativas adequadas. Se se podem dar ao luxo, uma ou duas semanas de férias no Inverno farão maravilhas. Aprender a comunicar e a ter em conta o ambiente social também será bastante útil. Apesar das diferenças culturais, os finlandeses são um povo simpático, acolhedor e até bastante fácil de conviver, quando lhes demonstramos respeito e amizade.
Preparados para aquilo que vos espera, poderão melhor apreciar o que este país tem de melhor para oferecer.

A terminar deixo-vos um dos clipes mais hilariantes que conheço sobre aquilo que muitos finlandeses descrevem como “ser finlandês” (tem um pequeno defeito durante 10 segundos, por volta do 1:40.)

Este artigo surgiu na sequência de comentários neste tópico do fórum. Agradeço aos membros que enviaram sugestões.

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