Já toda a gente ouviu dizer que os países nórdicos são campeões do suicídio. “Não é verdade que eles lá não se atiram todos de um penhasco ou se embebedam até cair para o lado?”

Há até uma conhecida canção dos anos 90…

Todavia, a realidade é distinta. E, reza a estatística, até surpreendente…

O tema veio à baila numa discussão sobre a felicidade dos países. Foi recentemente publicado um relatório das Nações Unidas sobre a felicidade, ordenando os países por suposta ordem de felicidade. Invariavelmente a atenção acaba por recair na tabela, dominada pelos nórdicos. Senão vejamos: 1º Dinamarca, 2º Noruega, 5º Suécia, 7º Finlândia e 9º Islândia. A Finlândia, acrescente-se, costumava estar nos três primeiros lugares mas isso foi antes da Nokia começar a fabricar Lumias…

A perplexidade face a estes resultados parte de dois equívocos: As pessoas tendem a confundir alegria (imaginem uma sardinhada animada ou um grupo de amigos a partilhar bons momentos) com felicidade. Não me dei ao trabalho de ler o relatório mas algo me diz que felicidade para as Nações Unidas está próximo de ser o “estado em que uma pessoa se sente quando as suas necessidades são atendidas.”

O segundo equívoco surge quando se tenta estabelecer uma relação entre a taxa de suicídio e a felicidade. Uma taxa média de suicídios de 10 pontos (10 por 100 000 habitantes) indica que se suicidam 100 pessoas por milhão ou, se preferirem um milhar numa população de 10 milhões. Admitindo que haja ainda mais pessoas em risco de se suicidar, continuamos a falar numa percentagem muito pouco significativa da população. A haver qualquer influência, e é para mim bastante discutível que possa haja, ela será mínima. Existem muitos factores que influenciam o suicídio, sejam culturais, religiosos, sociais e até a forma como são feitas as estatísticas (acidente ou suicídio? Em caso de dúvida…)

Para os mais teimosos que insistem em apontam para as estatísticas de suicídio cá vai uma pequena surpresa: os nórdicos, à excepção da Islândia, não são mais os campeões do suicídio. Ao longo da última década os números têm vindo a diminuir. A Finlândia ocupa o 19º lugar nesta tabela com dados da organização mundial de saúde. Não só a Finlândia não está muito atrás de um país relativamente próximo ao nosso (a França, 26º) como se, dos finlandeses que em 2011 se suicidaram, 230 não o tivessem feito, estaria na mesma posição de Portugal!

Agora aqui vai outra surpresa: A Suécia, onde aparentemente eles se “suicidam aos mil” está em 44º lugar, 5 lugares abaixo de… Não escrevo para não provocar dissonância cognitiva a alguns dos meus concidadãos.

É possível que estes valores de 2011 sejam uma aberração (se bem que haja relatórios de que os suicídios em Portugal estão a aumentar.) Mas também não é de todo impensável que daqui a uma década uma banda sueca escreva uma música com este verso: Och i Portugal de självmord i tusental.

O relatório pode ser encontrado aqui (a tabela começa na página 23 do PDF)

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