Numa praia de Helsínquia o finlandês apontava para o outro lado da baía: “acolá fica a nossa sede. Também lá temos bastantes estrangeiros, e por vezes há alguns problemas da comunicação.” Já terão passado quase 10 anos e este fragmento da conversa que inadvertidamente ouvi, mas por alguma razão ela ficou-me na retina. Talvez pela forma como o local, provavelmente um engenheiro da Nokia, explicava com indesmentível orgulho ao visitante estrangeiro que a Nokia era uma “coisa nossa.” Na altura a Nokia era o líder indisputado do mercado e ninguém antevia o que estava para vir. A única possibilidade de a Nokia deixar a Finlândia seria por razões fiscais, e cujo fantasma a companhia não deixou de agitar, mas que ninguém realmente levava a sério. Se bem que sempre houvesse aquele receio…
A história da Nokia confunde-se com a história da Finlândia dos últimos 20 anos, como um pequeno e periférico país saiu de uma crise tão ou mais grave como aquela que agora afecta Portugal e o sul da Europa , se levantou e cantou vitória. A Nokia era o orgulho dessa Finlândia capaz de se renascer das cinzas e de prosperar numa economia global, um símbolo da Finlândia inovadora e internacional.
Só que entretanto a Nokia foi ficando para trás. Os números continuavam a dar a Nokia como líder de mercado mas era impossível ignorar que um novo paradigma tinha chegado com o lançamento do iPhone. Notícias de despedimentos foram surgindo e milhares de pessoas foram perdendo os seus empregos. A companhia sofria uma morte lenta e os finlandeses foram perdendo a sua fé na Nokia e a empresa deixou de ser o destino favorito dos jovens universitários. Havia sempre aquela esperança de que a empresa pudesse operar um novo milagre, mas no fundo não havia muitas ilusões. É por isso que há quem veja nesta algo de positivo na notícia da venda da unidade de telemóveis, como se fora a notícia fosse libertadora.
Da Nokia esperávamos mais, como se a empresa tivesse obrigações adicionais por ser finlandesa. Da Microsoft espera-se que haja apenas nos seus interesses. Finalmente podemos admitir que não vamos a lado nenhum com a Nokia e avançar para outros projectos.
Culpar Stephan Elop, como o cavalo de tróia da Microsoft ou simplesmente incompetente é conveniente mas omite várias verdades dolorosas. É esquecer que a companhia perdeu demasiado tempo com o Symbiam, fosse para apostar seriamente na plataforma ou se decidir pelo Android. É esquecer que a companhia cometeu vários erros estratégicos no passado que colocaram a empresa em dificuldades no final da última década. E é sobretudo esquecer que Elop foi o homem escolhido pelo Conselho de Administração da Nokia. Porquê não se sabe mas especula-se que tenha sido exactamente para criar uma aliança com a Microsoft. E foi este mesmo CA que aprovou a venda à Microsoft. A Nokia precisa de dinheiro e talvez de sair do mercado dos telemóveis. A tragédia foi tê-lo feito tão tarde.
PS: Acabo de escrever este post vejo na Yle este outro: Nokia: More than just a company for Finns.

Um belo banho de humildade dado aos finlandeses. Que pensam que säo täo espertos, täo espertos, täo espertos, täo espertos, täo espertos, täo espertos, täo mais espertos que todos os demais e que caíram como patinhos no conto do Balmer, perdäo, do Elop.
Talvez aprendam a liçäo, nisso eles até säo bons.