Todos os estudantes estrangeiros que ingressam no ensino superior e tenham tido residência e trabalho a tempo inteiro na Finlândia no ano e meio que antecedeu o seu ingresso ficam habilitados a receber da segurança social uma bolsa de estudo igual à dos estudantes finlandeses.

Quando eu fui aceite para estudar na Aalto não me informei bem dessas condições e pensei que não tinha esse direito, por isso nem pensei em requerer a bolsa e não fiz nenhum contacto nesse sentido.

Por isso fiquei surpreendida quando recebi em casa uma carta da segurança social (KELA) a informar-me que tinha esse direito e inquirindo se queria recebê-la.

Aprendi nesse momento o que um serviço público deveria realmente ser: um organismo que activamente se dirige aos cidadãos para informá-los dos seus direitos, quando estes se “esquecem” de os reclamar.

Da mesma maneira aprecio as cartas que anualmente recebo do fundo de pensões, e que me informam de quanto descontei no ano anterior para a minha reforma, e qual o valor da reforma acumulada que já possuo.

Serviços públicos de qualidade!

Aqui há umas semanas, com -10 e piso gelado, fui às compras de bicicleta.
Nenhum problema. Aparte o fresquinho nas ventas, mas olha, é a vida. De resto, o piso estava duro, às vezes davam-se uns saltinhos, mas nada de especial que impedisse a normal prosecussäo da bicicletada.

Logo ontem, que tinha de ir ao centro da capital, com +1 e o gelo a derreter, em teoria até deveria ser mais fácil ir de bicicleta, näo é? Com um raio… Pois, é como a teoria económica neoliberal, só funciona no papel, na prática os resultados säo todos ao contrário!
O que se passa quando estamos a meio do degelo é que estamos a “patinar”… na “lameve” (lama+neve)! E como a consistência dela muda frequentemente, há zonas em que o pneu “encarrila”numa rasgo previamente aberto por outra bicicleta, e é um ai Jesus que lá vou eu.
Parece as motas no Dakar, väo muito bem, e de repente, ZUMBA, sai a traseira para um lado e o piloto para o outro!
Chegando à zona mais urbanizada, há outro perigo ainda, que é a queda de blocos de gelo do alto dos prédios, e o eventual slalom entre os já caídos.
Fartei-me e fui para a estrada, mesmo que estivéssemos em hora de ponta. Era isso ou andar. Curioso foi verificar que
a) ninguém apitou
b) só uma imbecil num Jaguar passou perto demais
c) os carros em geral näo andavam mais depressa que eu, o pouco que ganhavam perdiam inexoravelmente no sinal vermelho seguinte

Já devem conhecer o famoso “estudo” da Reader’s Digest, onde apenas uma carteira em 12 foi devolvida em Lisboa – e por turistas. Já em Helsínquia apenas uma não foi devolvida.
Trata-se, obviamente, uma farsa de estudo. Para começar a amostra é demasiado pequena (12? lol) o dinheiro nas carteiras não é ajustado ao poder de compra nem os locais onde as carteiras foram deixadas foram seleccionados de acordo com critérios estritos; o estudo não mede a honestidade, antes um suposto comportamento, que poderá ou não ter forte (ou fraca) associação ao conceito de honestidade.

estudo-carteiras-readers-digest

Se a revista quisesse fazer um estudo a sério teria não só respeitado o que estes e outros critérios elementares como teria feito algo muito simples: colocar a carteira em locais pouco movimentados e observar o comportamento da primeira pessoa a passar. Se a pessoa não a recolhesse os experimentadores recolheriam a carteira e iriam perguntar ao transeunte: viu a carteira? E se viu, porque não a recolheu?

É que embora acredite que nas ruas de Lisboa possa haver mais ladrões do que nas de Helsínquia, eu acredito que o que um estudo destes iria relevar seria o comportamento de apatia dos portugueses. As pessoas ditas normais ignoram a carteira e não se sentem no dever de agir, tal como os portugueses ignoram os seus deveres políticos.

E quando as pessoas ditas “normais” abdicam de agir, as pessoas menos escrupulosas agradecem. Os portugueses sabem do que estou a falar.

Segue o artigo original, tal como foi publicado a 11 de Fevereiro e que deu o nome a este artigo: Em verdade, um Finlandês não é mais honesto que tu…

No seu livro The honest truth about dishonesty: How We Lie to Everyone—Especially Ourselves, Dan Ariely discute os resultados de uma série de experiências sobre batota, nas quais participaram cerca de 30.000 indivíduos.
Alguns dos resultados das experiências são surpreendentes (nas circunstâncias adequadas quase toda a gente é desonesta; os “grandes batoteiros”, como políticos corruptos ou barões da banca são mais desonestos e, todavia, os custos directos da sua batota são mínimos quando comparados com o agregado das pequenas batotas da maioria de cidadãos comuns), outros nem por isso (banqueiros de Wall Street fazem mais batota que a maioria das populações; a batota é contagiosa.)

Talvez a conclusão mais inesperada seja a de que somos mais desonestos connosco próprios do que com terceiros, no nosso esforço para manter uma auto-imagem positiva. Fazer batota não resulta de uma análise racional aos custos e benefícios, antes está sujeita a uma série de influências externas, às quais nós, nos julgamos indiferentes.

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Aproximou-se da porta e disse o habitual “carta de condução e livrete do carro.” “Não a tenho comigo.Tirei-a da carteira à coisa de uma semana…” Entreguei à pressa o meu BI, sem sequer me pensar que eles não saberiam o que fazer com ele. “E o livrete?” Traduzi para o dono do carro, também, estrangeiro, que explicou que o carro estava em nome da namorada. E ela tinha os documentos do carro… O outro veio e fez-me soprar ao balão. “O carro tem um problema ali atrás, é ali…“, explicou o polícia. O resto não percebi. Foi até ao carro, falar com o colega. De repente lembrei-me e fui ter com eles: ” talvez o cartão da segurança social possa ajudar.” Sem carta e sem documentos, sentia-me à mercê dos polícias.

– Vivem na Finlândia? Trabalham cá?
– Sim, ali adiante.
Deu-me os documentos para a mão.
– Pode ir.
– Preciso apresentar a carta em algum lugar?
– Não é necessário.
– Então como sabem que eu tenho realmente carta de condução?
– Não sabemos. Mas contamos que sim.

A frase ecoou na minha mente e recordou-me mais uma vez, uma das coisas que eu aprecio neste país. Confiam em nós. Por vezes mais do que merecemos.
Ia a caminho do carro, aliviado, quando me lembrei de um dos problemas do carro:”não se importar de esperar até nós sairmos? O carro não tem andado a pegar muito bem…